Hélio Oiticica e a pintura fora do quatro

Hoje vamos falar um pouco sobre Hélio Oiticica, artista que desenvolveu diversos trabalhos a partir da pintura, uma das linguagens mais tradicionais das artes plásticas. Hélio Oiticica, nascido em 1937 no Rio de Janeiro, teve sua produção marcada pela experimentação. O artista participou do Movimento Concreto por meio do Grupo Frente, formado por artistas do Rio de Janeiro nos anos 1950, e, posteriormente, integrou o Movimento Neoconcreto, ao lado de artistas como Lygia Clark, Lygia Pape e Ferreira Gullar. O Neoconcretismo foi um desdobramento da pintura concreta (baseada em cores e formas, sendo não figurativa). Segundo o professor Celso Favaretto: “A arte neoconcreta visa à fundação de um novo espaço expressivo […] Libertando-a da tela e realizando-a no espaço real”. (FAVARETTO, 2000, p. 40). Os artistas neoconcretos propunham uma arte “mais livre”, na qual os espectadores pudessem ter mais interação com as obras.

A cor sempre foi muito presente nos trabalhos de Oiticica. A princípio ele a explorou em suportes bidimensionais e depois passou a deslocar os blocos de cor para o espaço tridimensional. Seus experimentos com a pintura começaram em meados dos anos 1950, quando criou uma série de guache sobre papel chamada, posteriormente, de “Metaesquemas”. Nesses trabalhos, o artista já demonstrava uma inquietude sobre o espaço pictórico. Em 1959, ele começa a explorar o espaço tridimensional com obras denominadas “Bilaterais” e “Relevos Espaciais”, chapas de madeira pintadas em uma só cor, geralmente cores quentes como vermelho e amarelo, que eram suspensas no espaço com fios de nylon. Esses foram os primeiros trabalhos de Oiticica a trazer a cor e a forma para o espaço, para fora do quadro.

Na década de 1960, o artista cria os primeiros “Núcleos”, também chamados “Penetráveis”, que possibilitava novas experiências do espectador com a obra, ao permitir que ele se deslocasse dentro dela. Em 1963, Oiticica cria os “Bólides”, estruturas com formas variadas e que podiam ser manuseadas, como recipientes com pigmento, areia, tecidos, terra, entre outros. Nesses trabalhos, a questão sensorial era mais estimulada no espectador, não sendo somente visual, mas também tátil e olfativa. 

Um dos trabalhos mais significativos de Oiticica relacionados à pintura no espaço ambiental é uma série de seis trabalhos, os “Magic Squares” de 1977. Edificações pensadas para ocupar espaços abertos, que não chegaram a ser executadas com o artista ainda vivo, mas que podem ser construídas a partir de instruções, plantas, desenhos e maquetes deixadas por ele. Hoje, por exemplo, é possível a construção de suas obras, como é o caso de “Invenção da cor, Penetrável Magic Square #5, De Luxe”, 1977, instalada permanentemente no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Esse trabalho, construído em ambiente aberto, possibilita ao espectador vivenciar as cores, as formas, o espaço e o próprio corpo, conectando-se com a natureza por meio do jardim, sendo essa uma das propostas do artista: aproximar arte e vida.

É importante pensarmos nos processos de criação, nos experimentos e nas transformações que acontecem nos trabalhos dos artistas ao longo do tempo. Oiticica tinha uma inquietude muito grande, e as mudanças em suas obras aparecem na diversidade de seus trabalhos. Segundo Tiago Mesquita (2012), quando Oiticica começa a trabalhar com obras tridimensionais ele dá continuidade às pesquisas com a pintura. Não rompendo com os trabalhos anteriores, ele vai adensando suas reflexões a respeito da produção das obras, chegando a dizer mais tarde que fazia “pintura depois do quadro”. Ao longo de sua carreira, Oiticica criou vários outros trabalhos que propunham a participação ativa dos espectadores.

Observe as imagens a seguir e as datas em que foram criadas.

Quais características permanecem nas obras mesmo tendo sido produzidas em épocas diferentes?

Observe os elementos plásticos (cor, forma, linha, luz e sombra) que estão presentes nas obras. O que você acha que o deslocamento da cor para o espaço fora do quadro pode proporcionar em termos de experiências sensoriais nos espectadores dessas obras?

“Grupo Frente”, Hélio Oiticica, guache sobre cartão, 50x53cm, 1956. Acervo Projeto Hélio Oiticica. Fonte: site Enciclopédia Itaú Cultural.
“Metaesquema”, Hélio Oiticica, guache sobre cartão, 45x53cm, 1957. Acervo Banco Itaú. Fonte: site Enciclopédia Itaú Cultural.
“Relevo Espacial”, Hélio Oiticica, óleo sobre madeira, 1959. Acervo Projeto Hélio Oiticica. Fonte: site Enciclopédia Itaú Cultural.
“Núcleo NC 6”, Hélio Oiticica, pintura sobre madeira recortada, 1960-1963. Acervo Projeto Hélio Oiticica. Fonte: site Enciclopédia Itaú Cultural.
“B11 Bólide Caixa 9”, Hélio Oiticica, 1964. Acervo Projeto Hélio Oiticica. Reprodução fotográfica: Cláudio Oiticica. Fonte: site Enciclopédia Itaú Cultural.
“Invenção da cor, Penetrável Magic Square #5, De Luxe’’, Hélio Oiticica, pintura sobre paredes de alvenaria, cobertura de metal e vidro, alambrado, 15x15x4,5m, 1977. Fonte: site do Instituto Inhotim.

Hélio Oiticica foi um grande experimentador das artes. Ultrapassou os limites do quadro e levou as cores e as formas para o espaço fora dele. Mesmo sem condições de realizar seus grandes projetos em vida, fez vários estudos muito bem documentados. Em seu ofício, os artistas, com seus experimentos e processos criativos, podem pensar livremente suas obras, pois a criatividade não tem limites.

Curiosidade:

No ano de 2014, alguns trabalhos de Hélio Oiticica estiveram no Palácio das Artes, durante a exposição “Do objeto para o mundo, Coleção Inhotim”. Foi a primeira vez que parte do acervo do Instituto Inhotim saiu de sua sede em Brumadinho para uma exposição, possibilitando alcançar outros públicos. As obras de Oiticica presentes na exposição eram alguns de seus “Relevos Espaciais”.

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Referências:

FAVARETTO, Celso. A invenção de Hélio Oiticica. São Paulo: Edusp, 2000, 34.

GIANNOTTI, Marco. Breve história da Pintura contemporânea. Editora Claridade, SP, 2009.

HÉLIO Oiticica. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa48/helio-oiticica>. Acesso em: 15 de Mar. 2021. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7.

INSTITUTO INHOTIM. Disponível em: <https://www.inhotim.org.br> Acesso em: 12 de Mar. 2021.

MESQUITA, Tiago.  Pintura no espaço em obra. In: “Desdobramentos da Pintura brasileira séc. XXI”. Editora: Cobogó, 2012.

Sobre o autor:

Giovane Diniz é licenciado em Artes Plásticas, mestre em Artes Visuais, artista plástico, professor e mediador cultural na Escola de Artes Visuais do Cefart – FCS.