Marepe: o artista “niilista” e afetivo

Marepe é um acróstico de Marcos Reis Peixoto, artista visual nascido na pequena cidade de Santo Antônio de Jesus, no interior da Bahia, em 1970. Em depoimentos e entrevistas, disse ter tido uma vida universitária tumultuada, nunca chegando a concluir o curso de Artes Plásticas na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Nesses trinta anos de carreira, Marepe conquistou rapidamente um espaço no cenário artístico baiano e brasileiro com sua produção artística diversificada em temas, técnicas e propostas. Hoje, Marepe desenvolve com maestria e irreverência uma proposta artística centrada em “ready-mades”.

Segundo a Enciclopédia Itaú Cultural, “ready-made” é um termo “criado por Marcel Duchamp (1887-1968) para designar um tipo de objeto, por ele inventado, que consiste em um ou mais artigos de uso cotidiano, produzidos em massa, selecionados sem critérios estéticos e expostos como obras de arte em espaços especializados (museus e galerias)”. Atualmente, pesquisas questionam a versão do pioneirismo de Duchamp e apontam que a primeira pessoa a compor um “ready-made” foi a artista e baronesa Elsa Von Freytag-Loringhoven.

Assim como nas proposições artísticas de Marcel Duchamp e de Elsa Von Freytag-Loringhoven, a irreverência e o senso de humor compõem o produto final da obra de arte. No ano de 2002, na 25ª Bienal de Arte de São Paulo, Marepe propôs uma obra bem inusitada. Isso porque normalmente se imagina um “ready-made” a partir de um objeto móvel, corriqueiro, do cotidiano, desconstruído e reposicionado em uma nova função. Já Marepe criou um “ready-made” a partir de um muro. Esse objeto artístico inusitado era um muro de um estacionamento da pequena cidade Santo Antônio de Jesus, pintado com uma propaganda de um armazém, ou depósito de construção, ou empório do interior, pintura essa que não tinha nada de especial.

Detalhe inusitado fica por conta da dificuldade de extraí-lo de seu local de origem, transportá-lo até São Paulo e colocá-lo dentro do pavilhão da Bienal sem que o muro, agora transformado em obra de arte, se danificasse. Interessante era perceber a incredulidade das pessoas ao observar uma obra que era um bem imóvel, que foi transportado por milhares de quilômetros e instalado no meio do pavilhão da Bienal. Destaca-se aí o niilismo, a subversão da expectativa do visitante que vê uma “regra” ser quebrada ao se deparar com algo que normalmente permaneceria no local em que foi construído.

Figuras 1 e 2: “Comercial São Luís – Tudo no mesmo lugar pelo menor preço”,
Marepe, pedaço de muro com pintura a óleo, 2002.
Fonte: Catálogo Fundação Bienal São Paulo.

O muro contém a propaganda de um comércio onde o pai de Marepe trabalhou durante vários anos, evidenciando a relação de afetividade com o pai e com o lugar em que esse senhor laborava. Assim, infere-se que a obra está ancorada em uma memória afetiva da cidade, sobre o pai e seu trabalho. Ao analisarmos o portfólio de Marepe, percebemos que o Comercial São Luís foi também um campo de pesquisa, experimentação e laboratório de “ready-mades”, pois vários objetos comercializados nesse local, como bacias, enxadas, picaretas e pás, foram utilizados na produção de suas obras.

Na obra “Doce Céu de Santo Antonio – série A”, o artista apresenta uma série de fotos em que aparece segurando um algodão-doce e é fotografado em “contra-plongée”, de baixo para cima. A mão direita de Marepe segura o algodão-doce, que simula uma nuvem, que é devorada pelo artista. Mais uma vez a afetividade se fez presente em sua obra, pois aqui se deu vazão ao sonho infantil de se alimentar de uma nuvem ou à relação pueril de que nuvens são de açúcar.

Figura 3: “Doce Céu de Santo Antonio – série A”, Marepe, fotografia, 2001.
Fonte: Reprodução fotográfica Iara Venanzi/Itaú Cultural.

A irreverência está na proposição de retratar um corpo adulto em um gesto divertido e infantil de se alimentar de algodão-doce.

No ready-made “Pinheiros”, observa-se uma montagem de bacias de alumínio, de variados tamanhos, encaixadas pelas bordas e aos pares, dando um formato de árvores coníferas. Aqui o utensílio de cozinha se transforma em um símbolo natalino, mesmo sem ter forma, enfeite ou cor para tal. Atitude muito lúdica de juntar objetos para simular algo ou possibilidades com o inusitado.

Figura 4: “Pinheiros”, Marepe, 2010, bacias de metal, dimensões variáveis.
Fonte: Galeria Luisa Strina.

Na obra “Os Filtros”, Marepe se utiliza do senso de humor das obras clássicas do dadaísmo “Roda de Bicicleta” e a “Fonte”, ambas de Duchamp, aproveitando-se de um banco, colocando sobre ele filtros de barro, sendo que apenas o filtro d’água central tem o tamanho usual, os outros dois sofreram uma interferência e estão mais alongados. Em um filtro usual, se tem um recipiente em que se deposita água não filtrada e outro em que se armazena a água para consumo, acessada por meio de uma torneira. Outra intervenção notada, para além do tamanho dos filtros, fica por conta da retirada da marca da empresa que os fabricou.

Figura 5: “Os Filtros” (detalhe), 1999, Marepe, instalação com filtros de cerâmica sobre bancos de madeira.
Fonte: Registro fotográfico Romulo Fialdini/Itaú Cultural.

Em “Construção 1”, temos um trabalho de encaixe usando objetos corriqueiros – enxada, picareta e machadinha – sem que haja grandes intervenções nos mesmos, apenas retirando os cabos de parte desses instrumentos de trabalho. Depois de montado, pode não sugerir outras formas ou abstrações ao observador, sendo basicamente um exercício de encaixe de formas e cores.

Figura 6: “Construção 1”, Marepe, instalação de ferro e madeira, 2010.
Fonte: Galeria Luisa Strina.

Por fim, na obra “Sem título”, temos um trabalho que o público pode literalmente vesti-lo. Trata-se de uma proposta sensorial, pois ao conectar-se com o espectador tornando-se um só, a obra de arte passa a ser um filtro sonoro para a percepção do mundo e uma barreira visual para os olhos.

Figura 7: “Sem título”, Marepe, fotografia, 2001.
Fonte: Reprodução fotográfica Iara Venanzi/Itaú Cultural.

Marepe, assim como as proposições de arte contemporânea, ao expor suas obras provoca o espectador mais conservador, desafia seu olhar e o força a repensar os limites da arte.

Sobre o autor:

Alexandre Ventura é professor de História da Arte no Cefart – FCS, graduado em História pela UFMG e mestre em História Social pela PUC-SP.