Rubem Valentim: arte, religião e diversidade

Quando se estuda a pintura construtivista ou o modernismo brasileiro ou a arte afro-brasileira, a produção de Rubem Valentim é algo que não passa despercebido. Em vida, sempre rejeitou ser rotulado como modernista ou construtivista ou qualquer outra nomenclatura europeia, assim como recusou esses rótulos para a sua arte. Nasceu no emblemático ano de 1922, em Salvador (BA), onde teve uma infância pobre. Para superar essa penúria, aprendeu o ofício de pintor de paredes, atividade que, segundo ele, o introduziu no mundo das artes. Aos dezoito anos, começa a realizar os primeiros trabalhos artísticos. Ainda sobre sua formação educacional, estudou Jornalismo no final da década de 1940.

Entre os anos de 1950 e 1970, produziu muito intensamente na cena artística de Salvador, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo. Trabalhos com diversas linguagens, não apenas pintura, mas obras tridimensionais, desenhos, serigrafias, instalações etc. Outro fator relevante de sua obra é a presença da cultura popular nordestina, sobretudo a baiana, algo propagado pelo modernismo brasileiro desde 1922. Ao longo dos anos 1960, acompanha a esposa, Lúcia Valentim, à Europa, residindo primeiro em Londres e depois em Roma, para um doutoramento e para estabelecer contato com a cena artística europeia. Lúcia foi professora de Arte na Universidade de Brasília. Especializou-se em Arte e Educação e sua experiência em pesquisa impactou os trabalhos e a carreira de Rubem, pois ele também se tornou professor universitário.

Para Giulio Carlo Argan, a pintura de Valentim se manifesta da seguinte forma: “A escolha temática que está na raiz da pintura de Rubem Valentim resulta das próprias declarações do artista: os seus signos são deduzidos da simbologia mágica que se transmite com as tradições populares dos negros da Bahia. […] Decompõem-nos e os geometriza, arranca-os da originária semente iconográfica; depois os reorganiza segundo simetrias rigorosas, os reduz à essencialidade de uma geometria primária, feita de verticais, horizontais, triângulos, círculos, quadrados, retângulos; enfim, torna-os macroscopicamente manifestos com acuradas, profundas zonas colorísticas [sic], entre as quais procura precisas relações métricas, proporcionais, difíceis equivalências entre signos e fundo” (Catálogo de exposição, 2019, p. 14).

Ainda nos anos 1960, assim como Mestre Didi (Deoscóredes Maximiliano dos Santos), Rubem Valentim vai à África para pesquisar e expor suas obras. A sua produção artística hoje está nos principais museus de arte moderna do Brasil e do mundo, a saber: Acervo Banco Itaú S.A.; Coleção Gilberto Chateaubriand – MAM/RJ; Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – MAC/USP; Museu de Arte Moderna da Bahia – MAM/BA; Museu Nacional de Belas Artes – MNBA/RJ; e Pinacoteca do Estado de São Paulo. Já internacionalmente, é relevante citar o Museu de Arte Moderna de Nova York – MoMA/NY e o Museu de Arte Moderna de Roma, onde conheceu Giulio Carlo Argan.

Ao contrário de Mestre Didi, que quase sempre colocava nomes africanos em suas obras, Rubem Valentim coloca nomes comuns, em português, como “estudos”, “composição”, “painel”, ou mesmo não as nomeia, ressaltando que as produções têm sempre componentes, símbolos e cores da tradição religiosa afro-brasileira em suas constituições.

No tocante a suas obras, temos 40 anos de produção artística com temas, objetos e referências religiosas, não apenas das religiões de matrizes africanas, mas também de outras religiões, como o catolicismo, o budismo etc. Em relação ao catolicismo, é relevante lembrar que Valentim, assim como o artista mineiro e seu contemporâneo Farnese de Andrade, interessa-se por ex-votos.

Dentre as suas primeiras obras, é possível encontrar óleos sobre telas. Com o tempo, passa a pintar sobre madeira e fazer uso de uma diversidade de suportes. Rubem Valentim afirma que as cores fortes das suas obras são meramente intuitivas. Na obra Composição (Figura 1), temos triângulos e círculos. Os triângulos representam a tríade católica (Pai-Filho-Espírito Santo). Na parte inferior da obra, observa-se várias construções de triângulos formando setas. Os círculos podem fazer alusão ao sol, criando uma rima visual com o tom avermelhado da obra. Desse modo, a cor vermelha é um elemento importante, pois está presente no culto de vários orixás.

Composição, Rubem Valentin, 1957-1959. Fonte: Site Itaú Cultural.

Na obra Painel Emblemático (Figura 2), tem-se a representação de 15 divindades da umbanda. Segundo o curador Bené Fonteles, essa obra é uma síntese de todo o trabalho de Rubem Valentim. No centro está Oxalá, representado pelo cálice, símbolo da comunhão cristã, que contém um sol. No seu entorno, outros orixás em uma dança circular, e, mais afastado desse centro, ele está protegido por três divindades à direita e à esquerda da obra. A recombinação, as associações e as fusões desses símbolos religiosos foram o escopo de trabalho de Rubem Valentim.

Painel Emblemático, Rubem Valentim, 1974. Fonte: Site Itaú Cultural.

O artista baiano se dedicou à produção de obras de grande tamanho, não apenas às esculturas que se assemelham a um totem, como a da Praça da Sé, em São Paulo (SP), mas também a quadros e painéis. Nos anos 1970, várias dessas obras foram adquiridas pelos governos federais, estaduais e por diversos municípios para decorar salas de altos dignitários ou salões de recepção. Uma obra de grande destaque foi o Templo de Oxalá (1977), exposta na Bienal de Arte de São Paulo, em 1977.

Sem Título, Rubem Valentim, 1977. Fonte: Site Itaú Cultural

Por fim, para mostrar a força e a importância do trabalho de Rubem Valentim, a obra Sem Título (Figura 3), que se encontra em um dos salões do Palácio do Itamaraty, compôs a cena da posse presidencial, onde o chefe do Executivo brasileiro recebe os cumprimentos e as saudações dos outros chefes de governos e de Estados diante dela.

Referências:

Imagens

Figura Ilustrativa – VALENTIM, Rubem. Relevo Emblema N. 4, 1977, acrílica sobre madeira, 100 x 150 x 5 cm. Acervo Museu de Arte Moderna da Bahia. Disponível em: https://artebrasileiros.com.br/arte/exposicoes/9023a-linguagem-afro-brasileira-e-universal-de-rubem-valentim/#:~:text=Em%20seu%20“Manifesto%20Ainda,mestiça-animista-fetichista. Acesso em: 24 Nov. 2020.

Figura 1 – VALENTIM, Rubem. Composição. Data de início: 1957 / Data de fim: 1959, óleo sobre tela, 70 x 50 cm. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra4915/composicao. Acesso em: 24 Nov. 2020.

Figura 2 – VALENTIM, Rubem. Painel Emblemático, 1974, acrílica sobre madeira, 44 x 70 cm. Acervo Coleção Particular. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra9790/painel-emblematico. Acesso em: 24 Nov. 2020.

Figura 3 – VALENTIM, Rubem, Sem Título, 1977, madeira recortada e esmaltada, 330 x 1345 cm. Acervo Palácio do Itamaraty (Brasília, DF). In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra9905/sem-titulo. Acesso em: 24 Nov. 2020.

Textos

ALMEIDA E DALE GALERIA DE ARTE. Rubem Valentim. São Paulo: Almeida e Dale Galeria de Arte, 2019. p. 14. Disponível em: https://www.almeidaedale.com.br/assets/pdfs/feiras/rubem%20web%20separadas.pdf. Acesso em: 30 Nov. 2020.

CONDURU, Roberto. Arte Afro-brasileira. Belo Horizonte: C/Arte, 2007.

ESCRITÓRIO COM ARTE. Rubem Valentim. [S.L.]: [S.E.], [S.D.]. Disponível em: www.escritoriodearte.com/artista/rubem-valentim. Acesso em: 30 Nov. 2020.

FERRAZ, Marcos Grinspum. A linguagem afro-brasileira e universal de Rubem Valentim: exposições no Masp e na Caixa Cultural retomam caráter político e universo simbólico do artista baiano. Arte! Brasileiros, São Paulo, 30 nov. 2018. Disponível em: https://artebrasileiros.com.br/arte/exposicoes/9023a-linguagem-afro-brasileira-e-universal-de-rubem-valentim/. Acesso em: 30 Nov. 2020.

FONTELES, Bené; BARJA, Wagner. Rubem Valentim: artista da luz. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 2001. p. 27-31.

FRAZÃO, Dilva. Rubem Valentim: artista plástico brasileiro. [S.L.]: E-Biografia, [S.D.]. Disponível em: www.ebiografia.com/rubem_valentim/#:~:text=Rubem%20Valentim%20(1922%2D1991),mestre%20do%20concretismo%20no%20Brasil.&text=Entre%20os%20anos%20de%201946,Carlos%20Bastos%2C%20entre%20outros%20artistas. Acesso em: 30 Nov. 2020.

LODY, Raul. Dicionário de Arte Sacra & Técnicas Afro-brasileiras. Rio de Janeiro: Pallas, 2003.

MATTOS, Regiane Augusto de. História e cultura afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2016.

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MUSEU AFROBRASIL. Rubem Valentim – Comentários do Artista. Disponível em: www.museuafrobrasil.org.br/pesquisa/indice-biografico/lista-de-biografias/biografia/2014/12/02/rubem-valentim-comentarios-do-artista. Acesso em: 30 Nov. 2020.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Cia das Letras, [S.D.].

RUBEM Valentim. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa8766/rubem-valentim. Acesso em: 24 Nov. 2020.

Vídeos

ARTE é investimento. Rubem Valentim, pintor, sobre seu trabalho. [Produzido por] Nelson Priori. Rio de Janeiro, junho, 1988. 1 vídeo. (5min40) Reliquiano.com, [S.D.]. Postado em dezembro 2018. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=TIgP30AkKes. Acesso em: 24 Nov. 2020.

RUBEM Valentim por Bené Fonteles. [Produzido por] Almeida e Dale Galeria de Arte. São Paulo, 21 de novembro de 2018. 1 vídeo. (1h12min10). Disponível em: www.youtube.com/watch?v=qxyCx7_HNNg. Acesso em: 24 Nov. 2020.

SEM Título (Rubem Valentim) – Análise Visual. [Produzido por] Gabriel Freitas.  São Paulo, maio de 2020. 1 vídeo. (10min55). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yLhWM110nKA. Acesso em: 24 Nov. 2020.

DIÁLOGOS no Acervo – Composição 12, Rubem Valentim. [Produzido por] Museu de Arte de São Paulo Assis Chateubriand. São Paulo, 16 de julho de 2020. 1 vídeo (55min50). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SYaokoou8sk. Acesso em: 24 Nov. 2020.

Sobre o autor:

Alexandre Ventura é graduado em História pela UFMG, mestre em História Social pela PUC-SP e professor de História da Arte no Cefart – FCS